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Dom Bosco NEPPSI

resenhas

JUN 2008
Resenha do livro A Cabeça do Brasileiro

Gilberto Gnoato1

A Cabeça do Brasileiro, lançado em 2007 pelo sociólogo e cientista político Alberto Carlos Almeida é, tomando as palavras do próprio autor, “um teste quantitativo da antropologia de Roberto DaMatta”. Este, para quem o sociólogo, em primeiro lugar, dedica sua obra, é o Tocqueville brasileiro. O francês analisou a democracia na América igualitária, enquanto que DaMatta revela no Brasil uma sociedade tremendamente hierarquizada. Almeida nos mostra que pessoas de escolaridade baixa têm menos propensão a expressar os valores democráticos e igualitários, enquanto que “pessoas mais educadas tendem a se afastar da autoridade superior e rejeitar as relações sociais verticais, em benefício de relações de poder mais horizontais” Seu trabalho e suas conclusões se realizaram através da aplicação de 2.363 entrevistas feitas nas cinco regiões do país, cujos questionários foram confeccionados a partir da teoria antropológica de DaMatta. Os temas investigados na pesquisa, e apresentados nos 11 capítulos do seu livro, variam entre racismo, o jeitinho, hierarquia, relações parentais, sexualidade, a presença do Estado, o público e a lei na sociedade brasileira. Entre outras observações, concluiu que quanto menor o grau de instrução dos entrevistados, maior o índice de aprovação da quebra das regras sociais patrocinadas pelo “jeitinho brasileiro”. “Entre esta população de baixa escolaridade, há também uma tendência em mostrar-se tolerante com a corrupção”, afirma o autor. O ponto que gerou polêmica em seu trabalho é que sua pesquisa retira o véu religioso, que no Brasil encobre os discurso acerca da pobreza e dos menos instruídos. Tradicionalmente, o governo e a Igreja sempre se encarregaram de “cuidar” dos pobres e dos analfabetos. Sobre eles, historicamente foi depositada, uma película de comiseração ideológica acerca de qualquer crítica que por acaso se pudesse fazer aos pobres ou iletrados. Outro aspecto impactante da pesquisa é a revelação de que a escolaridade baixa é a causa principal dos problemas brasileiros, num país (a observação não é do autor) onde o seu presidente se orgulha de não ter precisado de diploma para chegar à presidência do Brasil. Para o autor, “é a educação que comanda a mentalidade”. A pesquisa mostra que a população de baixa escolaridade tende a aprovar mais a censura e a intervenção do Estado, entre outras coisas. Por exemplo, 17% da população aprovam o nepotismo nos cargos públicos. Também tem um índice maior de aprovação no que se refere ao tão famoso jeitinho brasileiro. As práticas sociais da população se agravam mais ainda, porque o jeitinho – da pechincha, da lábia, da ginga, das manobras políticas e dos favores – acaba sendo a porta de entrada da corrupção. Mas, tragicamente, a pesquisa revela que, “o favor ainda é concebido pela população como algo legítimo na esfera pública”. Basta o leitor ouvir dos nossos políticos o número de vezes que estes se utilizam da palavra negociação quando deveriam se referir à palavra discussão. É sabido que o favor e o jeitinho sempre foram as práticas políticas mais convencionais da nossa história passada. Porém, daquela sala de visitas, o governo atual passou definitivamente para o âmbito seguinte: o espaço das negociações. Lugar onde se fazem negócios. Transformaram a política em compras e vendas de votos, projetos e medidas provisórias. Sequer as pessoas se dão conta do significado trágico desta semântica forçada. Eu perguntaria ao leitor esclarecido se esse tipo de política relacional feita na Casa do Povo entre parentes, amigos e amantes, é da ordem do jeitinho, do favor ou da corrupção? Afinal, é “uma questão de ordem excelência!”.

1Psicólogo, mestre em Psicologia da Infância e da Adolescência, professor do Curso de Psicologia da Faculdade Dom Bosco e coordenador do Projeto Gincana de Morretes.

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