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Dom Bosco NEPPSI

comunicações

JUN 2008
Considerações sobre o Atendimento Psicológico às Gestantes do Ambulatório de Medicina Fetal

Eugênia Oliveira1
Jussara Varassin2

No dia em que a enterrei, fazia um sol afrontoso. Essa luminosidade me ofendia a dor, que era surda e turva. Odiei a natureza. Que indiferença, que pouquidão nos acompanham! Como poderia sentir-me unido à natureza? Por acaso ela fazia algo por mim? Por acaso me concedera um amanhecer mais frio, com nuvens escuras, com pássaros negros? Tudo brilhava. Tudo era asquerosamente visível. O caixão de tua mãe descia à cova e o sol lhe acalentava a textura sombria, dele extraindo reflexos, uma luminosidade idiota, festiva. Não nos foi permitida sequer a palidez do rosto. O sol nos ruborizou, e nós nos olhamos, nos vimos arder, florescer intempestivamente como rosas estúpidas na primavera. Odiei a natureza, Martim. (FEINMANN, 2006, p.98)

Essa pungente descrição do enterro da querida esposa, feita pelo marido, em carta ao filho de ambos, nos pareceu uma forma de expressar o que vejo e escuto das mulheres que acompanhamos nas entrevistas de apoio psicológico do ambulatório de Medicina fetal. São gestantes de alto risco atendidas no serviço de Obstetrícia e que receberam diagnóstico de Má-Formação Fetal, sendo a partir desse ponto também acompanhadas pela Pediatria e Cirurgia Pediátrica. A imagem festiva de uma manhã ensolarada e o contrastante momento de dor no ato do sepultamento, sintoniza com a vivência esperançosa da gestação e a absorção de um doloroso diagnóstico como esse.
Em 1980, a psicanalista argentina Dra. Raquel Soifer publicou um livro relativo aos “últimos desenvolvimentos psicológicos no campo da gravidez, parto e puerpério”, do Ambulatório de Pré-Natal da Maternidade Sardá, em Buenos Aires. No capítulo referente às ansiedades dos dias anteriores ao parto, ela faz uma menção à gestação patológica:

Na hipótese de suspeita de má formação fetal, que de imediato se verificará no parto, parece-nos útil, segundo nossa experiência, não desmentir totalmente a vivência em tal sentido, exposta pela gestante, mas limitar-se a indicar que, no momento do nascimento, se saberá se é assim ou não; na oportunidade, pode-se proporcionar o esclarecimento adequado e ajudar a recolocar a situação. O esclarecimento baseia-se na noção da limitação humana e na necessidade de aceitar a má-formação como mais um componente do fenômeno vital. (SOIFER, 1986, p. 48)

Vinte e sete anos depois, com um nível de monitoramento gestacional, realizamos o diagnóstico precocemente e acompanhamos a evolução e viabilidade fetal; e, por isso, os pais sabem objetivamente o que se passa com o feto. 
Como nos preparamos para atender o casal? Como os ajudamos a aceitar e elaborar o diagnóstico ao longo das semanas subseqüentes?
Dizia a psicanalista Margaret Mahler (1977, p.15): “O nascimento biológico da criança e o nascimento psicológico do indivíduo não coincidem no tempo. O primeiro é um evento bem delimitado, dramático e observável; o segundo é um processo intrapsíquico de lento desdobrar.”
Aprendemos ao longo do tempo, acompanhando pais de bebês prematuros ou não, que o “tornar-se pais” é da mesma forma um processo lento, e muito conflitante diante de um bebê que apresente patologia, independentemente do prognóstico.
A má-formação traz consigo a pergunta relativa ao por que do fenômeno, culpabilidade genética, ou ainda a história da gestação, quanto ao desejo e aceitação. Mais do que esclarecer a impertinência de tais pensamentos para explicar o porquê, há necessidade de reconhecê-los, admiti-los e verbalizá-los. Torná-los conscientes para si mesmo e compartilhá-los permite que a mente desenvolva uma condição necessária à elaboração mental, preparando para o nascimento e, em alguns casos, à permanência dos pais durante o internamento do bebê na UTI Neonatal.
Ao longo da prática, percebemos que todas as gestantes sentem-se gratas por receber da equipe médica os elementos e respostas claras e verdadeiras quanto ao diagnóstico e prognóstico. Essa postura comprometida com a verdade as auxilia a desfazer o clima nebuloso em torno da gestação, tão freqüente ao longo da seqüência de ecografias e outras formas de monitoramento. Mas ainda assim, durante uma entrevista de apoio psicológico, chama nossa atenção a fala em torno do assunto penoso e a postura de acarinhar a barriga, um gestual comum das mãos, demonstrando sua vinculação. Inicia-se nesse ponto a alternância de uma despedida agonizante do bebê sonhado e momentos de silêncio e busca de saída para a angústia e impotência.
A Sra. A., por exemplo, nos conta que está na 34.ª semana gestacional de gemelares e foi esclarecida de que um dos gêmeos apresenta imagens incompatíveis com a vida, pois toda a parede abdominal e parte do tórax não se fecharam. Há sinais claros de que o coração é também mal-formado. Ela vai aos poucos encontrando formas de expressar a alegria em saber que um deles está bem e em seguida a dor e o medo pelo outro.
A ansiedade pela proximidade do parto, conhecida por todos nós, mobilizadora de angústias primitivas, especialmente no parto normal, nesta mulher tornam-se mais graves merecendo atenção. O do nascimento traz consigo a condenação do bebê. É comum observarmos o desejo explícito de que o tempo parasse. Os últimos dias que antecedem o parto destinam-se a uma necessidade da mente de se refugiar da implacável realidade no alento da espera de um milagre. O mistério divino é como um colo generoso oferecido à mãe desamparada. É como se toda a equipe também silenciasse em respeito ao processo de elaboração.
Pensamos que diante desses momentos dramáticos, nos é desconhecida a capacidade do casal, e em especial da gestante, de lançar mão de uma capacidade interna descrita como lifegiver pelo psicanalista Neville Symington (1993). Há uma alternativa mental à aceitação da “ofensa da natureza”, quando a constituição narcísica do indivíduo não toma a si mesmo como único objeto de amor. Em pessoas emocionalmente atendidas ao longo de sua vida, é possível contar com uma força criativa que é interna e ao mesmo tempo é externa ao self, levando a uma opção em direção à aceitação da realidade e adaptação do desejo materno ao bebê real.
Compartilhamos, nestes últimos três anos, algumas experiências em que jovens mulheres ao longo do internamento foram se tornando emocionalmente capazes de cuidar e velar por seus bebês doentes, alguns com um alto grau de deformidade, indo além do impacto inicial diante da aparência de seus corpos e verdadeiramente investiram e sofreram até o momento do óbito. Sabemos que essas mulheres não saem de “mãos vazias” da maternidade. É dado mais um passo em direção ao tal nascimento psicológico, e abre uma esperança a uma futura maternidade.
Gostaríamos de repensar a forma como nos organizamos para o apoio psicológico às gestantes, ou seja, oferecendo um encontro semanal em grupo. Consideramos atualmente o formato inadequado. Não é possível estabelecer num grupo a continência necessária à diferentes patologias num primeiro contato. Sendo assim, sugerimos que os atendimentos sejam realizados separadamente. Após uma fase inicial, talvez seja possível o encaminhamento para o grupo. Isso também auxiliaria a equipe à uma percepção mais precisa quanto à competência dos pais para a elaboração do diagnóstico e seus desdobramentos como a permanência na unidade para auxiliar nos cuidados com o bebê. Após a entrevista inicial, os pais são convidados a conhecer a unidade; é uma visita acompanhada pela enfermagem e tem demonstrado ser de grande valor como forma antecipatória de preparação ao internamento do bebê.
Observamos ainda que o encaminhamento ou a disponibilidade da gestante à entrevista é tardia. De fato, em quase todos os casos o primeiro contato foi realizado nas últimas semanas que antecedem o parto. Sugerimos que o encaminhamento aconteça no momento da suspeita e/ou confirmação do diagnóstico. Para o processo de elaboração mental o tempo é fundamental, incluindo nesse conceito a própria elaboração onírica. Isto pode ser observado quanto ao tipo de dúvida formulada pelo casal nas entrevistas subseqüentes: há uma necessidade explícita para se conhecer a gênese, a causalidade, o prognóstico. Embora nos pareça muito útil informar a concretude da patologia, isso é insuficiente diante da complexidade da transformação mental. Como exemplo: na fantasia a deformidade diante de um diagnóstico de Hidroanencefalia assume características desproporcionais, e quando os pais e em especial a mãe visualiza seu bebê recém-nascido expressam, na sua totalidade, surpresa diante da aparência. O bebê frágil, com traços reconhecíveis e normais, nem que seja por aspectos parciais, ameniza a vivência terrorífica da fantasia. Abre-se assim um espaço potencial ao cuidado parcial (pelo tempo de vida, pela responsividade do bebê à mãe). Aprendemos que é nesse espaço potencial que a mulher se apropria da maternidade. Completa-se assim um nascimento.

REFERÊNCIAS

FEINMANN, José Pablo. A Sombra de Heidegger. São Paulo: Planta do Brasil, 2006.
MAHLER, Margareth. O Nascimento Psicológico da Criança. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.
SOIFER, Raquel. Psicologia da Gravidez, Parto e Puerpério. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.
SYMINGTON, Neville. Narcissism: A new Theory. Londres: Karnak Books, 1993.

1Médica psicoterapeuta, voluntária na UTI Neonatal do Hospital das Clínicas UFPR.
2Médica pediatra e psicoterapeuta, voluntária na UTI Neonatal do Hospital das Clínicas UFPR.

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