No dia em que a enterrei, fazia um sol afrontoso. Essa luminosidade me ofendia a dor, que era surda e turva. Odiei a natureza. Que indiferença, que pouquidão nos acompanham! Como poderia sentir-me unido à natureza? Por acaso ela fazia algo por mim? Por acaso me concedera um amanhecer mais frio, com nuvens escuras, com pássaros negros? Tudo brilhava. Tudo era asquerosamente visível. O caixão de tua mãe descia à cova e o sol lhe acalentava a textura sombria, dele extraindo reflexos, uma luminosidade idiota, festiva. Não nos foi permitida sequer a palidez do rosto. O sol nos ruborizou, e nós nos olhamos, nos vimos arder, florescer intempestivamente como rosas estúpidas na primavera. Odiei a natureza, Martim. (FEINMANN, 2006, p.98)
Arquivo em PDF
Visualizar