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A responsabilidade corporativa se dá de duas formas: empurrada por pressões ou provocada pelas recompensas vislumbradas. Na sociedade atual, as informações são trocadas em tempo real, de forma mais globalizada do que há trinta anos, mas, segundo vários historiadores, pode-se afirmar com a mesma convicção que a sociedade estará mais globalizada em 2.050 e muito mais ainda em 2.100. A globalização não é o resultado de apenas uma ação, como ligar a luz ou dar a partida no carro. Ela é um processo histórico que, embora tenha sido muito acelerado nos últimos vinte anos, reflete uma transformação incessante, na qual a competição ultrapassa os limites das nações e onde os consumidores estão cada vez mais exigentes e informados; não basta criar e apresentar novos produtos e/ou serviços, os consumidores buscam mais.
Observa-se um movimento progressivo do número de consumidores que vinculam a compra de um produto ou serviço à imagem que a empresa tem na comunidade.
Não devemos identificar a globalização apenas com a criação de uma economia global, embora esse seja seu ponto focal e sua característica mais óbvia. Precisamos olhar para além da economia. Antes de tudo, a globalização depende da eliminação de obstáculos técnicos (como harmonização de legislação, políticas sociais etc.) e não apenas de obstáculos econômicos, conduzindo a um padrão de maior exigência do consumidor-cidadão.
Acompanha-se o crescente aumento de reclamações nas instâncias judiciais e órgão de proteção ao consumidor contra empresas cujos produtos e serviços causem prejuízos aos consumidores e ao meio ambiente.
Mesmo os executivos têm feito a opção por trabalhar em empresas cuja meta não seja pura e simplesmente gerir pessoas através dos lucros, mas, sim, buscar uma eqüidade entre os meios e o resultado.
Em meio a todas essas questões de transição paradigmática, insere-se a questão, por exemplo, da manutenção do meio ambiente, que busca respostas a problemas atuais a nível mundial, tendo como uma das linhas de atuação, o conceito de desenvolvimento sustentável. Como resposta à questão da desigualdade econômica, busca-se interligar causas e repercussões do desenvolvimento ao meio ambiente, levantando questionamentos que colocam em cheque o futuro do gênero humano. Aspecto esse já explorado por muitas empresas e organizações para promoverem seu diferencial em relação aos seus produtos e serviços, e para diferenciarem-se de seus concorrentes.
Essa simples análise interdisciplinar demonstra a estreita ligação de causa e efeito dos problemas socioeconômicos, seguidos do problema da atividade econômica, que atualmente é exercida segundo padrões não sustentáveis, gerando conflitos constantes acerca do equilíbrio do meio ambiente que fatalmente desagrega o meio social e, em um segundo momento, o próprio segmento produtivo.
Se os consumidores, concorrentes e profissionais têm pressionado as corporações empresariais a assumirem sua responsabilidade social, fornecedores, governo, terceiro setor, entidades religiosas e mídia também têm chamado a atenção delas. Ainda deve ser levado em consideração os investidores, que estão longe de serem baluartes da filantropia, contudo os detentores de capitais de fomento têm noção que investimentos sociais retornam para quem financia a imagem social de grupos corporativos. Fatores que resultam em uma pressão que tende muito a aumentar a parceria entre as empresas e o terceiro setor, para atuação nas cearas de responsabilidade social empresarial.
Outro fator relevante para o estabelecimento de parcerias entre o terceiro setor e as empresas é que a maioria das empresas privadas do sudeste brasileiro desenvolvem ações sociais, 48% fazem doações a organizações da sociedade e 44% diretamente aos beneficiários segundo a pesquisa Ação Social das Empresas, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA (http://www.ipea.gov.br), já no ano de 1999; relatando ainda em sua pesquisa que as empresas informaram a opção por agir no campo social devido à confiança no trabalho desenvolvido pelas organizações comunitárias. Entretanto, 30% cobrou mais transparência na gestão das organizações.
Não está crescendo apenas o aporte das empresas na área social, o trabalho das entidades do terceiro setor vem ganhando importância, a análise da composição orçamentária das organizações ligadas à Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (Abong) e a origem de seus recursos evidenciam que no início desta década, houve um aumento do volume de recursos em 35% em termos nominais. Individualmente, os orçamentos ainda são modestos. Sendo que a maioria dos recursos vem do estrangeiro, contudo verifica-se um crescimento significativo do financiamento dos governos e especialmente das empresas.
Se as empresas informam que confiam nas organizações, esse por si só já é um dos elementos para a realização de parcerias entre o terceiro setor e as empresas, por outro lado é uma alternativa para as organizações do terceiro setor formarem suas equipes através de parcerias/alianças estratégicas, contratações temporárias e negociações de projetos, e captação de recursos, além de promoverem reorganizações institucionais com o correspondente planejamento de atividades, podendo trazer as empresas para tornarem-se parceiras dos projetos já em execução das organizações sociais ou mesmo criarem novos. Contudo, não podemos deixar de debater a transparência dos resultados de gestão das organizações, tendo em vista os últimos dados negativos de desvios de capital noticiados pela mídia nos últimos tempos. Fator que pode afastar a iniciativa de as empresas tornarem-se a parceira mais importante das organizações sociais, tendo em vista a mudança de gestão corporativa voltada para o impacto social de suas atividades.
Evilásio Gentil de Souza Neto
Mestre em direito empresarial e cidadania, professor do curso de Direito da Faculdade Dom Bosco.