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O Grupo / Faculdade / Colunistas

Que Dó de São Francisco...

São Francisco talvez tenha sido o mais cristão dos cristãos. Mais até que Jesus Cristo; entretanto, não quero criar celeumas nem cometer heresias. Digamos, então, que São Francisco foi o maior cristão abaixo de Jesus Cristo. Mostrou o que é desapego, mostrou o que é humildade, mostrou o que é abnegação, humanidade e mostrou o que é amor ao próximo. Ensinou-nos o que é doar-se.

Nossos políticos estão na contramão do que São Francisco pretendia. Enquanto ele abriu mão de seus bens materiais, dando as próprias vestes em favor de outrem e fazendo voto de pobreza, nossos políticos engajam-se na vida pública em busca de bens materiais, com o intuito de enriquecer, fazendo um voto, ainda que velado, de riqueza.

São Francisco usava sacos de aniagem como vestes, nossos políticos fazem questão de usar Armani, que embora também seja de origem Italiana, não é o mesmo tecido das roupas de São Francisco.

São Francisco tinha habitação modesta, nossos políticos habitam mansões, mas juram que são modestas também. Diriam, até, de uma modéstia franciscana.

São Francisco nos ensinou a repartir o pão, nossos políticos não dividem nada, apenas acumulam e ensinam que é mais fácil contar com o voto de quem não tem pão.

São Francisco nos ensinou a arte de viver na verdade, nossos políticos aprenderam a arte de viver na mentira.

Francisco, me perdoem a intimidade, ensinou que “é dando que se recebe”. Com isso quis mostrar que é dando que se é humano. Não se recebe porque algo é dado a alguém, mas se recebe porque o gesto em si seria uma dádiva divina e só pode oferecer quem recebeu essa dádiva.

Nossos políticos, habilíssimos na retórica e na capacidade de deturpar qualquer idéia, transformaram esse ensinamento em fisiologismo. O fisiologismo dos nossos maus políticos repete o refrão “é dando que se recebe”. Se ele dá, quer receber, criando uma dívida, muitas vezes cobrada de forma desigual daqueles que lhes confiaram o voto. Um fisiologismo que torna os corredores, câmaras e assembléias no espaço mais vil sobre a face da terra. Tanto é que nem temos idéia da perversidade com que se negociam projetos, leis, propostas e vantagens.

Ser franciscano é ser humilde, é viver sem ambição, é pensar no outro e na coletividade, sem interesses mesquinhos ou escusos. Ser franciscano é pensar primeiro em SER e não em TER, mas nossa sociedade atual está embriagada pela possessividade e o desejo de possuir coisas, o que anula qualquer tentativa de pensar diferente disso.

Ser fisiologista é ser interesseiro, é ser corporativista, é seguir uma ética suspeita e duvidosa, onde o dar-se bem, em detrimento do outro, parece óbvio e lógico. Ser fisiologista é pensar de forma consumista e mercantil, onde tudo pode e obriga a que se tenha algo para troca ou que haja um pagamento por qualquer coisa, ação ou gesto.

Vivemos a contramão da história, se é que história tem contramão. Tenho a impressão que a vida virou o negativo, como os filmes antigos de fotografia, onde as cores aparecem ao contrário, onde o claro fica escuro e o escuro fica claro. Olhando para o negativo podemos reconhecer algumas coisas, achamos outras engraçadas, não identificamos algumas; sabemos que está ao contrário, mas não podemos fazer nada. Apenas torcemos para que a revelação fique boa.

No negativo da vida, os valores estão invertidos, sabemos o que é o certo e o errado, e optamos pelo errado. Sabemos o que devemos fazer e optamos por não fazer. Sabemos que as más condutas enfraquecem os valores positivos e premiamos os maus comportamentos. Sabemos quais são as leis e que elas devem ser cumpridas e as violamos com a desculpa mais estapafúrdia: “mas todo mundo faz!”, acompanhada de uma cara de santo, quase franciscana.

De um lado temos São Francisco e de outro a política atual, no meio estamos nós... políticos também...

Sei que você vai argumentar; “mas podemos ser franciscanos neste mundo capitalista?” ou “como fazer voto de pobreza, com tantas contas para pagar?”. Não sou tão ingênuo – acho que não –, mas acredito que pelo menos a nossa honestidade pode ser franciscana. Não no sentido de sermos pouco honestos, mas de não sermos coniventes com o que nossos políticos fazem às escondidas no que chamam de “a casa do povo”; de um povo que não tem casa, não tem pão e não tem forças para acabar com essa perversão.

O fato de vivermos num mundo capitalista não pode nos tirar a visão franciscana de buscar a igualdade e o amor fraterno. É impossível conciliar capitalismo com honestidade? Então há algo errado, ou com o capital ou com a integridade de caráter. Imagino que sem o capitalismo uma sociedade se sustenta, mas sem caráter...

Sinto dó de São Francisco e vergonha dos políticos, principalmente por saber que sou tão político quando os políticos eleitos. Pois como político representado, tenho responsabilidade sobre os políticos eleitos...

Não podemos fazer uma política franciscana enquanto os políticos profissionais fazem uma política fisiologista.

Uma alternativa? Devemos mostrar às nossas crianças quem era São Francisco e quem são nossos políticos. Talvez, quando adultas, elas encontrem uma solução para acabar com a política deprimente que presenciamos.

Meu medo é que as crianças concluam que São Francisco estava errado!

Eugenio Pereira de Paula Júnior
Neuropsicólogo, mestre e especialista em educação, professor do curso de Psicologia da Faculdade Dom Bosco e Conselheiro do Conselho Regional de Psicologia do Paraná.

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