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Os Heurísticos...

Calma, não se trata de nenhum povo extinto ou remoto. Os heurísticos talvez sejam o principal objetivo da educação libertária.

Algoritmos e heurísticos são processos cognitivos que empregamos para resolver os problemas que aparecem nessa vidinha que levamos. São ferramentas artificiais ou simbólicas que nosso cérebro manifesta na busca de respostas para os desafios que enfrentamos visando alcançar a felicidade.

Os algoritmos são os processos ou ferramentas que já conhecemos e dominamos.

São as respostas que já temos prontas. Já os heurísticos, que ainda parece algum povo antigo, são os processos mentais que não dominamos, que não conhecemos ou que não sabemos que temos. Os heurísticos manifestam-se quando não temos mais algoritmos para utilizar e então temos que criar ou aprender novas formas para resolver um problema.

No uso dos algoritmos a memória é a função cognitiva predominante, enquanto que no uso dos heurísticos as funções cognitivas predominantes passam a ser o pensamento, a criatividade e o raciocínio. O algoritmo é preguiçoso, os heurísticos demandam trabalho. O algoritmo é trabalho bobo, o heurístico é trabalho vivo, criativo e produtivo. Nos algoritmos a resposta é pronta, dada e repetida mecanicamente. Nos heurísticos a resposta é buscada, criada, inventada e, algumas vezes, achada ou adivinhada.

Nascemos heurísticos, mas a educação nos torna algoritmizados rapidamente. A sociedade moderna trata de nos dar tudo de que precisamos para vivermos adaptados ao contexto social. Basta seguir as regras dadas e pronto.

Basta decorar as respostas que se espera e apresentá-las quando necessário. Assim seremos felizes.

No início da vida temos que aprender quase tudo e, à medida que vamos aprendendo, descobrimos que basta repetir uma resposta dada anteriormente. Basta usar a mesma solução para problemas novos. Assim, vamos aprendendo que não temos que nos preocupar com o que é certo ou errado, ou se é certo ou errado. Se disseram que é assim, então basta obedecer e todo mundo fica contente. Basta tornar os problemas novos em antigos e pronto! A vida volta aos trilhos.

A vida moderna tornou-se mecânica, previsível e pasteurizada. Muitos pensam que viver é reproduzir algoritmos, um depois do outro, repetir os hábitos diários, reclamar por mudanças e continuar fazendo tudo da mesma forma. Mas porque não mudamos isso? Ué! Porque não queremos. Pois mudar exige a construção de novos heurísticos e isso dá trabalho e demora um pouco. E, nos dias de hoje, quem tem paciência para alguma coisa? Principalmente para o trabalho e para a mudança? Queremos tudo fácil, sem trabalho e sem demora.

Paciência é fundamental para uma educação libertadora. Mas onde encontraremos tempo para dar e ter uma educação libertária? A mãe, em vez de esperar que o filho vista a blusa por seus próprios méritos, dando-lhe a chance de desenvolver o controle motor dos músculos envolvidos na tarefa, por pressa e impaciência já veste a blusa no menino. Fica ela feliz com o filho arrumado e ele fica feliz porque tem quem faça as coisas por ele.

O pai, em vez de acompanhar toda a análise que o filho faz nos “porquês” seguidos, responde com um “porque sim”, tornando-se mais enfático a cada investida da criança.

O que se ensina é aprendido. Assim, aprendemos a impaciência e desaprendemos a perseverança. Aprendemos o caminho mais fácil e desaprendemos o mais eficiente. Aprendemos o mais rápido e desaprendemos o mais longo, porém reflexivo. Aprendemos a usar algoritmos e não sabemos mais criar heurísticos.

Nossa educação, em nome da pressa e da rapidez, perdeu a precisão, a eficiência e, infelizmente, o sentido. Aprendemos muitas coisas e de forma rápida, porém não sabemos para que ou porque, só aprendemos. E quando perguntamos “por que?...” a resposta é; “porque sim...”.

Aprendemos a dar respostas rápidas e prontas às questões apresentadas, mas esquecemos que, muito mais importante que a resposta, a análise dessa resposta torna-se fundamental nesse processo. Hoje aceitamos ingenuamente a ideia de que basta responder e que pensar sobre a resposta dada não tem importância. O algoritmo mais utilizado por nossos alunos e, sejamos honestos, pelos professores também, é o famoso Ctrl+C/Ctrl+V (o tal do recorta e cola). Basta preencher o espaço vazio com alguma coisa.

O efeito disso é que o homem que pensava fez máquinas que não pensavam, apenas executavam os comandos dados. Mas hoje parece que a situação mudou um pouco. As máquinas pensam cada vez mais (usam mais heurísticos) e o homem pensa cada vez menos, vivendo na base dos algoritmos e das respostas prontas.

A educação deve resgatar o uso de heurísticos pelas pessoas. E a melhor forma de se conseguir isto seria pelo incentivo ao emprego da criatividade, de respostas criativas, inovadoras e inéditas.

E como podemos conseguir isso nas aulas libertárias?

Eis um problema que espera por respostas heurísticas. Fica o desafio...

Eugenio Pereira de Paula Júnior
Neuropsicólogo, mestre e especialista em educação, professor do curso de Psicologia da Faculdade Dom Bosco e Conselheiro do Conselho Regional de Psicologia do Paraná


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