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As bebidas alcoólicas facilitam a digestão?

O álcool ajuda a digestão? Paschal Tieghen, do Hospital Robert-Ballanger, Aulnay-sous-Bois, França, Unidade de Alcoologia, responde que não. Ao contrário, as bebidas alcoólicas, sobretudo as de teor um pouco mais elevado ou de ingestão repetitiva, diminuem a atividade digestiva, reduz a mobilidade do estômago e intestino e modifica a acidez gástrica.

Os alimentos, para serem transformados em nutrimentos utilizáveis pelo organismo, devem ser desdobrados pelos sucos gástricos, enzimas e ácido clorídrico. Ora, o álcool escapa deste processo: é uma das raras substâncias que não sofre nenhuma modificação, pois é absorvido passivamente e integralmente pelo estômago. Pior nas paredes do estômago. O álcool bloqueia a secreção da gastrina, hormônio que controla a acidez e induz a motricidade do mesmo estômago e do intestino. Resultado: a digestão vai retardando.

Uma vez absorvido, o álcool se difunde pelo organismo. No sangue, atinge a concentração máxima em alguns minutos. Então, é degradado pelas enzimas do fígado, sendo transformado em dióxido de carbono, gorduras e água, é eliminado uma hora e meia depois, provocando a necessidade de urinar – mecanismo que reforça erroneamente a idéia de digestão, desde que urinar não significa boa digestão.

O simbólico álcool digestivo nada tem a ver com a sua ação fisiológica totalmente independente. Condicionado pela apelação de digestivo, o usuário  supõe que a digestão será melhor se a refeição for acompanhada de bebida alcoólica. Infelizmente, o álcool digestivo tem valor significativo na hospitalidade: oferece-se à visita, aos convidados, o que há de melhor em matéria de bebidas alcoólicas, sem falar das festividades, em que o álcool é ingerido em doses repetidas, acompanhado de um falso sentimento de bem-estar, o que simbolicamente e erroneamente significa boa digestão.

Álcool e adolescência

A consumação de álcool na idade precoce leva à diminuição da matéria cinzenta dos neurônios em várias áreas do cérebro. É o que revela um estudo de imagiamento cerebral, in vivo, realizado entre 2003 e 2006, por S. Chanraud et al. (La Recherche, n.º 405, fev. 07, pág. 21), em 31 homens com idade entre 30 e 50 anos, que consumiram vinho e demais bebidas alcoólicas desde a adolescência. O imagiamento confirma que o uso diário do álcool provoca modificações anatômicas no cérebro. A diminuição da matéria cinzenta chega a 20% nas regiões frontais e uma alteração mais difusa nas conexões entre as áreas cerebrais, principalmente no corpo caloso que liga os dois hemisférios cerebrais. As imagens revelaram que a idade do primeiro contato com o álcool é determinante: quanto mais precoce ela é, mais a matéria cinzenta sofre retração, notadamente nas regiões pré-frontais, cuja maturação definitiva só acontece no final da adolescência.
Atualmente, está em pauta a discussão da venda de bebidas alcoólicas nas rodovias. Entre os numerosos malefícios provocados pela bebida alcoólica, dois deles citados acima, é de se perguntar: Está correto o governo em proibir a ingestão de bebidas alcoólicas nas rodovias brasileiras? Em si, existe algum argumento maior que justifique a venda de bebidas alcoólicas às margens das nossas estradas?

Aurélio Bolsanello
Biólogo, professor do curso de Fisioterapia da Faculdade Dom Bosco.

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