PROPRIEDADE, NACIONALISMO E REVOLUÇÃO
Se anteriormente, analisando formas de pensamento no Brasil no final do século XVII, tropeçamos com o sistema colonial, presidindo suas elaborações e envolvendo-as, se nestas expressões, sentimentos e reflexões esbarramos frequentemente com a propriedade como tema dominante (embora nem sempre conscientizado), a questão que se impõe é a seguinte: que é a propriedade dentro de um sistema de colonização? Dadas as características especificas da propriedade dentro de tal sistema, que tipo de problemas e soluções podem ser observadas e quais os encaminhamentos no nível da consciência possível da época?
Basicamente, parece-nos que a propriedade surge como entidade contraditória num sistema de colonização. Sua contradição fundamental: de um lado, é sobre a propriedade que esta assentando o sistema; resulta imprescindível seu desenvolvimento e fortalecimento para o êxito da colonização. Por outro lado, deve-se considerar que tal fortalecimento gera novos interesses que se chocam com os fins do colonização. Em outros termos, a ampliação da propriedade serve de suporte para comportamentos que se opõem às metas do processo.
A contradição surge, pois, num elemento que é ao mesmo tempo o, requisito e o desintegrador do sistema. Parece desnecessário recordar que aos comportamentos que brotam em tais transformações se associam formas de pensamento, estilos de pensamento que só poderão ser bem avaliados se vistos no contexto em que se geram.
"Sentimento 'patriótico', no Brasil do século XVIII, já significa Revolução. Diversamente das manifestações coetâneas européias, o 'patriotismo' brasileiro é basicamente anticolonialista. Traz em seu bojo uma carga de inconformismo que se exterioriza de maneiras diversas, segundo as diferentes áreas e camadas sociais da Colônia. Mas em todas as ocorrências, conscientizada ou não, a condição colonial preside as atitudes e as elaborações mentais."
MOTA, Carlos Guilherme. Idéia de revolução no Brasil.
Rio de Janeiro, Vozes, 1979. p. 75-9.