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O século em que estamos apresenta-se como um período de intenso desenvolvimento tecnológico, em que os seres humanos têm à sua disposição recursos que lhe propiciam muito conforto, melhorias espetaculares na área da saúde, avanços sem precedentes nos processos industriais e empresariais, equipamentos de telecomunicações e transportes de altíssima velocidade para se comunicar com todo o mundo. Apesar disso, essa mesma sociedade passa por situações opostas. Ainda há muitas pessoas sem escola, saúde, moradia, alimentação, emprego, etc. O funcionamento do sistema capitalista promove conseqüências gravíssimas à sociedade, desde o aumento do desemprego até a destruição do meio ambiente.
A contrapartida nos dias de hoje chama-se sustentabilidade, que pode ser entendida como a possibilidade de “aprimorar as condições de vida, enquanto se minimiza o uso de recursos naturais, causando o mínimo de distúrbios e desequilíbrio no ecossistema”. (RATTNER, 1999, p. 189)
Assim, “as estratégias de desenvolvimento sustentado terão que ser caracterizadas pela viabilidade econômica, eqüidade social, sustentabilidade ecológica, aceitabilidade moral e qualidade estética”. (RATTNER, 1999, p. 192)
Pode ser definida também, conforme a CMMAD (Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento), criada pelas Nações Unidas, como “o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender às necessidades das futuras gerações”.
Desse modo, uma das alternativas para intensificar esse tipo de consciência na sociedade é investir na educação. Não há como negar a eficácia do ensino como instrumento de desenvolvimento de um país. As faculdades, que formam os futuros líderes do Brasil, constituem um nicho importantíssimo para a formação de cidadãos com competências técnicas, éticas e cidadãs necessárias à sustentabilidade do país.
Atualmente, com as modificações geradas pela globalização e a intensificação do setor de serviços, o mercado oferta serviços que, até então, eram promovidos pelo Estado. Segundo Calderón, há vários motivos para que ocorresse a privatização de áreas exclusivamente públicas, como “a institucionalização do mercado da educação superior, a transferência das responsabilidades estatais para o mercado, o fortalecimento da livre iniciativa e a hegemonia de políticas educacionais de corte neoliberal”. (2006, p. 8)
Assim, é primordial as faculdades e universidades repensarem seu papel de profissionalizantes ou apenas formadoras de massa trabalhadora, como aconteceu com a explosão de inúmeras faculdades particulares, assumindo a posição de educadoras responsáveis socialmente. As faculdades podem promover a mudança na sociedade, por meio de ações assistencialistas, que, somente, não se enquadram na proposição de responsabilidade social ou inclusive promovendo a conscientização cidadã e ética. Esta deve ser desenvolvida no processo ensino-aprendizagem do acadêmico, a fim de tornar uma prática comum no exercício da sua profissão. As ações assistencialistas instituídas por muitas instituições de ensino superior (IES) demonstram a necessidade da comunidade e da própria instituição de envolver-se com as causas sociais que interferem no desenvolvimento e crescimento das organizações e, conseqüentemente, do país.
Os próprios alunos e professores podem promover a conscientização na sociedade, mediante pesquisas sérias e rigorosas, da indispensável inserção da ética na discussão curricular, transversalmente e no exercício profissional, e de ações diretamente vinculadas às comunidades próximas, as quais despertam atitudes solidárias e de mudança social nos acadêmicos. (KLIKSBERG, 2006, p. 25)
Portanto, além de as empresas desenvolverem seus mecanismos de responsabilidade social, as IES também têm como adequar esse conceito, inicialmente empresarial, para sua realidade. Segundo François Vallaeys, “a responsabilidade social universitária exige, a partir de uma visão holística, a articulação das diversas partes da instituição em um projeto de promoção social de princípios éticos e de desenvolvimento social eqüitativo e sustentável, com vistas à produção e transmissão de saberes responsáveis e à formação de profissionais cidadãos igualmente responsáveis”. (WAGENBERG, 2006, p. 28)
De acordo com uma rede integrada das principais universidades chilenas, Construye Pais, a responsabilidade social universitária (RSU) deve encarregar-se de quatro eixos principais: “gestão, docência, pesquisa e extensão universitária, atendendo, assim, do ponto de vista social, à própria comunidade universitária, à região e ao país em que se insira”. (WAGENBERG, 2006, p. 28)
Não se trata de políticas prontas, mas cada faculdade pode desenvolver seu diagnóstico e sua reforma. É importante salientar também que apenas ações de atendimento às necessidades da comunidade não se convertem em responsabilidade social. Esta precisa desenvolver consciência e interdependência, desenvolver cidadãos que saibam conquistar seu espaço e defender-se das dificuldades do dia-a-dia.
É assim que a Faculdade Dom Bosco desenvolveu seu projeto de responsabilidade social, projetando o aprofundamento de questões sociais em cada uma de suas áreas – Administração, Direito, Educação Física, Fisioterapia e Psicologia –, a fim de promover uma formação profissional qualificada e, principalmente, reconhecida socialmente pela busca incessante de um país mais ético e responsável. Ainda existem aqueles indivíduos que duvidam da efetividade de uma educação com qualidade, entretanto sabemos existirem aqueles que realizam seu trabalho com afinco e dedicação, promovendo confiabilidade e resultados. Diante do exposto, podemos desenvolver um país melhor, se acreditarmos que a mudança é possível e que ela começa exatamente onde estamos, sem terceirizar a responsabilidade, mas assumindo-a como pré-requisito profissional e de cidadania.
Regiane Aparecida Atisano
Mestre em Sociologia, professora e coordenadora do Curso de Administração da Faculdade Dom Bosco, coordenadora do Projeto de Responsabilidade Social da Faculdade Dom Bosco
Referências bibliográficas
ASHLEY, Patrícia Almeida (Coord.). Ética e responsabilidade social nos negócios. São Paulo: Saraiva, 2006.
CALDERÓN, Adolfo Ignácio. Responsabilidade Social Universitária: contribuições para o fortalecimento do debate no Brasil. In: Estudos: Revista da Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior. Ano 24, n. 36. Brasília: Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior, jun. 2006.
KLIKSBERG, Bernardo. A ética e a responsabilidade social da universidade. In: Estudos: Revista da Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior. Ano 24, n. 36. Brasília: Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior, jun. 2006.
PASSOS, Elizete. Ética nas organizações. São Paulo: Atlas, 2004.
RATTNER, Henrique. Liderança para uma sociedade sustentável. São Paulo: Nobel, 1999.
VALLAEYS, François. Que significa responsabilidade social? In: Estudos: Revista da Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior. Ano 24, n. 36. Brasília: Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior, jun. 2006.
WAGENBERG, Alan. A urgência da responsabilidade social universitária. In: Estudos: Revista da Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior. Ano 24, n. 36. Brasília: Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior, jun. 2006.