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A história do Paraná começou pelo seu litoral, mediante a primeira expedição em 1531 (CARNEIRO,1995) ou 1532 (MARTINS, 1995). O interesse por Morretes se deu pela procura do ouro.
“Sua casa adornada de damásco e seda sua meza servida de baixela de práta, suas mocâmbas, ou as molatas pagens de sua família, adornadas de grôssos cordões de Oiro, de mais de çem oitavas de pezo, e té tinha hua completa banda de muzica de instrumentos de sôpro; que seus escravos tocavão principalmente quando elle hia à Villa de Paranaguá fazendo hua entrada pompôza, ao som da trompa e do clarim.” (SANTOS,1851, p. 20)
Mais recentemente, nos últimos 20 anos, a ideologia da modernidade chegou a Morretes para se travar uma luta entre o velho e o novo. Entre a tradição e a modernidade, o que redundaria em dizer. Uma luta entre a natureza e a cultura. A cidade recebeu novo e pequeno impulso econômico, por meio do olhar dos turistas e de “expedições” mais modernas, como associações de donos de pousadas, restaurantes e empresas de transportes, de especuladores imobiliários e organizadores de eventos.
A tradição ocidental de se pensar contra a natureza (TURNER, 1990) tem uma raiz centrada na dicotomia cartesiana e criou raízes nos sistemas de crenças locais, de maneira que a forma de pensar a natureza é cultural. Por outro lado, de acordo com Godelier (1984), apud Diegues (2002), a “natureza sempre tem dimensões imaginárias” (p. 65). Isso quer dizer que o homem não atua diretamente com o mundo natural sem antes passar por um mediador, isto é, através da cultura (DAMATTA, 1986/1987; GUARESCHI e BRUSCHI, 2003) e das representações sociais (MOSCOVICI, 2003).
Bem anteriormente a essas datas, a ocupação simbólica da natureza foi organizada pelo estatuto teológico do século XVI, cuja tradição bíblica colocou o mundo natural a serviço do homem (THOMAS, 1996), a partir do momento em que o próprio Deus tirou os homens do estado de natureza, conforme Rousseau,1993.
Com a Revolução Industrial e o desenvolvimento das cidades, cada vez mais os selvagens, os caiçaras, os pirambus, a “sabença “ do caboclo, bem como os bichos foram marginalizados. Observa-se em Curitiba, “capital ecológica” e também “social”, numa recente campanha de trânsito, que a publicidade foi muito mais uma campanha contra a natureza do que a favor do trânsito, na medida em que as barbeiragens , as grosserias e a agressividade no trânsito não eram atribuídas aos condutores humanos , mas às peruas, antas e aos galos. Também no mundo sobrenatural litorâneo, a mula-sem-cabeça, o boitatá e o saci são entidades oriundas do mundo natural isto é, do lado de fora do homem. (GAMBINI, 1988)
Em 1995, os paralelepípedos do centro histórico da pequena cidade de Morretes receberam uma camada asfáltica. Havia uma série de outras ruas, mais distantes do casario central, em que o asfalto teria sido mais útil. A utilidade, no entanto, não seria o motivo dessa obra tão festejada pela população. Constataram-se: 1) 65% dela eram favoráveis; 2) a resposta que mais apareceu como justificativa para defender o asfaltamento – “porque é moderno”. Ao ser indagado sobre o significado da resposta, nenhum entrevistado soube responder. Asfaltar os paralelepípedos do centro histórico da cidade parece ter sido um ritual de passagem. Colocando o plástico sobre as pedras do centro histórico, poder-se-ia dizer que a modernidade finalmente teria ultrapassado a tradição. Numa outra hierarquia igualmente comparativa, o “costume urbano de cimentar o quintal” (DAMATTA,1994, p. 116) representa para o autor o triunfo do homem sobre a natureza.
No campo da psicologia sócio-histórica, esta retira o homem da natureza, abominando qualquer concepção “biologizante” da vida social. Desse modo, Bock & Gonçalves & Odair (2001) “sociologizam” o biológico, enquanto, do outro lado, com visão igualmente cercada de antolhos, tudo se transforma em ecologia.
Gilberto Gnoato
Mestre em Psicologia da Infância e da Adolescência, professor do Curso de Psicologia da Faculdade Dom Bosco e coordenador do Projeto Gincana de Morretes.
Referências bibliográficas
BOCK, A. M. B.; GONÇALVES, M. G.; FURTADO, O. Psicologia sócio-histórica (uma perspectiva crítica em psicologia). São Paulo: Cortez, 2001.
CARNEIRO, D. O Paraná na história militar do Brasil. Curitiba: Travessa dos Editores, 1995.
DAMATTA, R. Conta de mentiroso - Sete ensaios de antropologia brasileira. Rio de Janeiro: 1994.
Você tem cultura? In: Explorações ensaios de sociologia interpretativa. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
DIEGUES, A. C. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Hucitec, Nupaub/Cec, 2004.
GAMBINI, R. O espelho índio. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988.
GUARESCHI, N. M. de F.; BRUSCHI, M. E. (Org.). Psicologia social nos estudos culturais - perspectivas e desafios para uma nova psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003.
MARTINS, R. Terra e gente do Paraná. Curitiba: Travessa dos Editores, 1995.
MOSCOVICI, S. Representações sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003.
ROUSSEAU, J. J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
SANTOS, Antonio Vieira dos. Memória histórica chrónologia topographia e descriptiva da Villa de Morretes e do Porto Real vulgarmente Porto de Cima. 1851.
THOMAS, K. O homem e o mundo natural (mudanças de atitudes em relação às plantas e aos animais (1500-1800). São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
TURNER, F. O espírito ocidental contra a natureza. São Paulo: Hucitec, 1990.