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Fazer tipologia sempre foi uma tentação da razão. Afinal, nós não conseguimos viver se não colocarmos o mundo dentro de categorias, classificando todas as coisas que vemos diante de nós. Não vou resistir a essa tentação e vou também fazer classificações. O homem contemporâneo é tão curioso que classificar seus diferentes aspectos em determinados tipos gerais pode ser um agradável exercício do pensamento.
No artigo anterior escrevi sobre o homem consumidor e relacionei-o com uma fantasia típica que sobrevive no inconsciente de todos nós: receber ilimitadamente sem ter que pagar por isso ou, numa versão mais light, pagando muito pouco.
Dessa vez, vou tratar do homem descartável e procurar que fantasia nele se realiza. A propósito, todos sabemos que vivemos uma vida dupla, embora freqüentemente não nos agrade saber disso. Uns vivem como Adão expulso do paraíso – cumprindo seus deveres, acordando cedo, suando para ganhar seu dinheirinho, agüentando chefes irritados, parceiros queixosos etc… etc… etc… Outros continuam vivendo no paraíso em suas fantasias, o que não quer dizer, absolutamente, que essa vida não seja real; ela é tão real quanto a outra.
Há tempos atrás, li no jornal uma notícia que me deixou meio preocupado. Sabe-se que essas sacolinhas plásticas que enchemos de compras nos mercados são um veneno para o meio ambiente. Mas isso não impede que saiamos de lá com dezenas delas. As autoridades, preocupadíssimas com esse fato, pensaram em uma solução brilhante: sacolas biodegradáveis. E eu fiquei pensando: porque não desestimular o uso de sacolas, por exemplo, cobrando por elas? O resultado seria o esperado: todo mundo levaria sua própria sacola, daquelas grandes, de pano, de lona, que antigamente a gente levava para todo lugar onde fôssemos comprar algo. Sacolas de longo tempo de utilização, não descartáveis.
As sacolas não deveriam ser nossa única preocupação. Tem também aquelas bandejas que os mercados usam para acondicionar frios, pães, doces e mais uma infinidade de coisas. O que a gente levava embrulhado num pedaço de papel, hoje vem com algo a mais; um problema a mais para o meio ambiente.
Está certo, isso economiza tempo e esforço, e ninguém quer se esforçar muito. Afinal esses problemas com o lixo ambiental são para o futuro, é para depois…
Mas a “descartabilidade” está vagarosamente invadindo mais espaços na vida de hoje. Quando íamos visitar um nenê recém nascido víamos aquele espetáculo de bandeiras brancas desfraldadas nos varais. Hoje vemos quartos entulhados com fraldas descartáveis. Quando íamos viajar, tirávamos 12, 24, 36 fotografias e só sabíamos o resultado muito tempo depois. A gostosa sensação de ver como as fotos tinham saído tinha que ser adiada até a revelação. Hoje, tiramos milhares de fotografias, vemos o resultado na hora, apagamos umas tantas e, quando nos damos conta, esquecemos de sorver a paisagem retratada nas fotos. Quando estávamos na escola e tínhamos que fazer um trabalho, a montoeira de livros nas prateleiras da biblioteca era o caminho. Chegar naquele livro que continha a informação desejada muitas vezes implicava percorrer uma pilha. Hoje, basta digitar o nome desejado no Google, imprimir e dar para o professor. Claro que a leitura do texto é descartável.
Isso começa a ficar perigoso. Nada de levar sacolas, nada de esperar em filas, nada de ficar colecionando garrafas vazias, nada de suar em cima do tanque, nada de esperar as fotos ficarem prontas, nada de gastar horas em cima de livros procurando conhecimento.
O descartável faz isso: torna tudo mais fácil, mais prático, mais rápido, economiza tempo e esforço, proporciona satisfação imediata. Mas porque temos tanta pressa e queremos nos poupar tanto? Porque adiar a satisfação requer tolerância: esperar, adiar, suportar a frustração, suportar o sofrimento que ela implica, lidar com os limites que o mundo e os outros impõem; enfim, conseguir as coisas com o suor do corpo.
Mas isso não condiz exatamente com o paraíso que desejamos que o mundo seja: tudo na mão, sem obstáculos para a satisfação, nenhuma preocupação com o amanhã, uma realidade sem limites, perfeitamente condizente com nossas fantasias.
Há uma certa época da vida em que os pais tentam fazer um mundo assim para seus filhos. Abolem-se os limites em homenagem a her majesty, the baby. Isso deixa um pequeno sonho latente dentro de nós: ter pais descartáveis. Esses não servem, pois não conseguem suspender os limites. Bem, há outros na prateleira!
Fábio Thá
Psicólogo, psicanalista, doutor em Estudos Lingüísticos, coordenador do curso de Psicologia da Faculdade Dom Bosco.